Aplique de cabelo ajuda jornalista a se encontrar e a realizar sonho da avó

All Things Hair | 27 abril 2019
Mulher com tranças afro

No primeiro relato #AmoMeuCabelo, a jornalista Ana Claudia Luiz conta como as memórias afetivas de infância a ajudaram a tomar a decisão de colocar mega hair. Além de realizar um sonho da avó, hoje ela consegue ter uma relação de amor com os cabelos e nos conta por que os fios representam sua verdadeira personalidade.

Por Francine Costanti

“Quem me vê hoje, de mega hair, não imagina que minha relação com os cabelos sempre teve altos e baixos e também alguns traumas durante a infância. Quando somos crianças queremos ser iguais a todo mundo, então eu queria muito ter fios lisos, franja, jogar os cabelos, sair da piscina e não ter preocupações sobre como ele ia ficar, iguais às minhas amigas brancas e as pessoas que apareciam na televisão.

Entre 13 e 15 anos, gostava muito de forró e ia em várias casas noturnas com as minhas amigas brancas. Nessa época, obviamente, eu não me relacionava com ninguém, porque sempre fui a ‘amigona’ de todos, mas nunca a ‘garota que os meninos queriam se relacionar’. Lembro que um dia meu irmão fez uma festa de aniversário e alguns amigos negros dele me xavecaram e eu fiquei muito surpresa.

Logo em seguida, com uns 16 anos, lembro que comecei a frequentar alguns eventos de hip hop na galeria Olido, no Hole Club, Blen Blen Black e Mood (todos em São Paulo). Lá eu percebi que eu não era invisível, pelo contrário: os caras se interessavam por mim, pediam pra dançar, pra ficar comigo, me xavecavam e, a partir disso, fui fazendo várias amizades com meninas negras. Amizades que eu tenho até hoje, inclusive.



“Alisei o cabelo para tentar ser como todas as minhas amigas”



Como toda menina negra, eu sempre alisei os cabelos para tentar ser como todas as minhas amigas. Comecei a usar o cabelo crespo nessa época, não só por influência dos artistas negros que ouvia, mas também porque fiz amizade com as meninas negras desses lugares. Como meu ciclo social mudou, senti essa identificação. Até então eu só tinha amigas brancas. Por isso, digo que a minha consciência com os cabelos começou a mudar quando tive contato com a cultura negra, tanto a música quanto as pessoas.

Descobrimento dos fios fora do Brasil

Em 2018 fui fazer um curso de inglês no Canadá por seis meses e, depois disso, fui passear em Nova York e Los Angeles (Estados Unidos) com uma amiga que estava morando em Toronto comigo. Nessa época eu fazia permanente afro há cerca de dois anos, mas tive que cortar porque ele começou a quebrar, então viajei com os fios bem curtinhos.

Mulher com cabelos sem mega hair
Ana Claudia antes de colocar o mega hair | Foto: arquivo pessoal

Durante o período em que morei lá comecei a perceber que as mulheres negras, muitas delas jamaicanas, têm outra relação com os fios. Elas assumem os mais diferentes estilos de tranças e isso não as impede de trabalhar em lugares corporativos, por exemplo, enquanto nós sempre fomos menos ousadas por conta do racismo estrutural. Há 10 anos era impensável ver uma mulher negra em uma empresa de cabelo black por aqui. Hoje em dia, ainda em pequena escala, é possível de ser visto.

Enquanto estava fora do Brasil, uma das minhas preocupações era “o que fazer com o meu cabelo quando a raiz começar a crescer?”. Dito e feito! Com o tempo, meu cabelo estava ficando muito poroso e sem vida. Então decidi fazer tranças com uma jamaicana perto de casa. Enquanto estava sentada na cadeira, fiquei ouvindo as histórias da cabeleireira, que deixou a família na Jamaica para morar no Canadá. Foi aí que notei uma conexão muito forte e especial com ela.

Com os fios trançados por uma cabeleireira jamaicana que conheceu no Canadá | Foto: arquivo pessoal

Isso é algo que sempre acontece aqui quando eu vou a uma profissional negra, mas encontrar essa ligação com uma mulher negra jamaica, imigrante, que mora no Canadá, me emocionou demais e me fez perceber que todas nós, mulheres negras, temos elos muito fortes, independente de onde nascemos ou moramos. Trançar, colocar perucas ou fazer um entrelaçamento, tudo isso te traz uma identidade muito forte sobre afeto e ancestralidade que fortalecem a nossa autoestima e cuidado.

Transformação pelo mega hair e a lembrança da avó

Mas a decisão de fazer mega hair partiu de uma lembrança sobre os conselhos que eu recebi a infância toda da minha avó, falecida há 11 anos. Sempre fui muito parecida fisicamente com ela, éramos muito apegadas uma com a outra e, apesar de ela não estar mais aqui, eu sigo a amando intensamente, todos os dias!

Ela dizia que seu sonho era me ver de cabelo comprido ou com mega hair, dizia que eu ficaria muito mais linda, que ia me valorizar, algo que eu sempre torci o nariz! Decidi fazer isso por mim e por ela, mesmo ela não vendo essa minha realização. Tenho certeza de que, se estivesse aqui, ela ficaria muito feliz pela minha decisão e eu fico emocionada em fazer algo pensando no orgulho que ela sentiria de mim.

Mulher com tranças afro
Curtindo a época do cabelão comprido | Foto: arquivo pessoal

Hoje eu amo meu cabelo, porque realizei um sonho não só da minha avó de me ver com mega hair, mas meu também de ter bastante volume. Consegui perceber que esse é o cabelo que me define, é minha cara, meu jeito e foi feito com muito amor por uma amiga negra que entende minha causa como mulher negra. De onde ela estiver, deve ter soprado algo na minha consciência que me fez tomar a decisão de parar de ficar insatisfeita com o comprimento do cabelo e pensar em colocar mega hair.  

Eu sempre oscilei entre trança e alisamento mas, mesmo com escova nos cabelos, gostava que ele tivesse bastante volume. Dos meus 18 anos até agora eu passei por muitas transições capilares, alisamento, natural, tranças, permanente afro. Hoje, na minha fase adulta, acho que me encontrei usando mega hair, agora com black power!

O black power depois de colocar o mega hair | Foto: arquivo pessoal

Quanto à rotina de cuidados com os cabelos, confesso que não sou tão atenciosa, por isso o mega hair facilitou muito a minha vida. Sempre fui cobrada por amigas e cabeleireiros para fazer hidratação periodicamente, mas não faço. Lavo constantemente, três vezes na semana, uso bons cremes para modelar os cachos e leave in de diferentes marcas e texturas. Faço a manutenção do mega hair de três em três meses e só.

Fico muito feliz em ver, cada vez mais mulheres, crianças e adolescentes negras, assumindo seus cabelos crespos. Essa construção vem de muitos anos, algo que foi muito importante para que tudo isso acontecesse e existisse da forma como existe hoje. Antes mesmo da palavra ‘empoderamento feminino’, muitas mulheres negras enfrentaram racismo institucional para que o cabelo crespo fosse aceito além da televisão e de mulheres famosas, brasileiras e norte-americanas.

Tenho plena consciência de que meus cabelos são parte fundamental da minha história e personalidade. Quando me olham, as pessoas não me veem apenas como uma mulher, mas também como uma mulher negra e a minha negritude fica evidente. Tudo isso está ligado às questões que eu acredito e as bandeiras que eu levanto.”