Rose Hapuque: “Sou uma pessoa normal com a missão de trazer a representatividade das mulheres tipo 4”

Tamires Crispim | 11 agosto 2017
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Conheça a blogueira baiana dona de um belo cabelo tipo 4C!

Quando entrou na transição capilar em 2011, a blogueira Rose Hapuque, 25 anos, nem sabia que a decisão de assumir o cabelo natural tinha um nome. Sem contar com todo o conteúdo disponível hoje para quem topa passar por esse desafio, ela precisou aprender sozinha a lidar com a textura do seu cabelo 4C. Agora ela comanda o blog Meu Cabelo Tipo 4 e exibe fios bonitos e volumosos, sendo referência para as meninas que possuem o mesmo tipo de cabelo e querem mostrar o crespo no mundo. Em um bate-papo exclusivo, a baiana fala sobre seus desafios capilares, dá dicas para as donas de fios tipo 4C e conta como o cabelo a fez mudar de dentro para fora. Vale a pena conferir!

ATH entrevista Rose Hapuque

modelo de rose hapuque
Foto: Reprodução/Instagram @rosehapuque

All Things Hair: O que te motivou a passar pela transição capilar? Como era seu cabelo antes dessa decisão?

Rose Hapuque: Assumi meu cabelo natural na minha segunda transição. A primeira durou um ano, mas, por pressões familiares, voltei a alisar o cabelo. Em 2011, comecei a sentir uma grande necessidade de me ver com o cabelo que nasci. Sempre me considerei negra e via o meu cabelo como fortalecimento identitário. Antes de passar pela transição, usei diversas químicas para ter o cabelo mais liso, como amônia, guanidina e até progressivas, só que sempre que via aquela raiz crespa nascendo percebia que não chegaria ao “liso ideal”. Decidi parar de alisar meu cabelo e passei pela chamada transição capilar que, até então, nem sabia o que era.

ATH: Como surgiu a ideia de criar o “Meu cabelo tipo 4”? O que mudou na sua vida?

Rose Hapuque: O blog Meu Cabelo Tipo 4 surgiu após um longo período de inquietação: não via blogs e Youtube de mulheres com cabelo crespo tipo 4. Até então, a ideia não era trabalhar com redes sociais, mas sim trazer uma forte representatividade para as mulheres tipo 4, ainda mais as 4C que, até então, eram vistas com um cabelo ainda não aceitável pela sociedade.

Quando me tornei youtuber não sentia grandes diferenças na minha vida, mas resolvi realmente investir nessa profissão. Hoje, sabendo que ajudo no fortalecimento da autoestima de tantas mulheres dentro e fora do Brasil, minha vida mudou completamente. Nunca tinha me visto como uma figura pública e confesso que não me vejo até hoje. Sou uma pessoa normal com a missão de trazer a representatividade das mulheres tipo 4 nas redes sociais.

modelo de rose hapuque
Foto: Reprodução/Instagram @rosehapuque

ATH: A transição não é simples e só quem já passou por ela sabe disso. Por ser dona de um cabelo 4C acha que o processo foi mais desafiador? Como foi a adaptação com a textura dos seus fios?

Rose Hapuque: Poxa, que pergunta incrível! Hoje encontramos muitos vídeos sobre transição capilar na internet e, às vezes, fazem até parecer que esse momento é fácil. Quando passei pela transição, há cinco anos, tinha acesso quase que nulo a essas informações e sobre processo que estava passando. Ou seja, nem sabia como, só sabia que queria ter meu cabelo natural de volta. É engraçado que na época não sabia que estava na transição.

Só que aí chega a parte mais temida por muitos: a descoberta sobre nosso tipo real de cabelo. Nos primeiros meses não temos consciência ao certo de qual será nosso tipo de cabelo. Confesso que na época não tinha acesso à tabela dos tipos de cabelo ainda, mas sabia que meu cabelo seria bem crespo. Então, passei toda a transição capilar usando tranças feitas com meu próprio cabelo por minha mãe ou irmã. Levei esse processo durante oito meses até o dia do big chop (grande corte).

O processo foi bastante complicado, pois não conseguia manter as duas texturas. Na raiz um cabelo supercrespo nascendo e, nas pontas, um cabelo quebradiço e cheio de relaxamentos e progressivas, superralo e fino. E ainda assim, depois do big chop passei um ano usando o cabelo somente no afro puff, porque não sabia como lidar ou usar de outras formas. Era tudo novo para mim, mas não me arrependi.

ATH: O tratamento e valorização do cabelo cacheado é igual ao do cabelo crespo?  O que precisa ser mudado?

Rose Hapuque:  Não é mesmo. É nítida a forte valorização do cabelo cacheado: parece que se criou uma tendência de “quanto mais ‘perfeito’ melhor”.  Até mercadologicamente falando, podemos perceber o tratamento que as cacheadas têm dentro do mercado quando falamos de representar uma marca ou produto, nas publicidades e ações. Um questionamento que nós sempre temos é a falta de mais produtos voltados para nosso tipo de cabelo, que é totalmente diferente de um cabelo cacheado.

É muito mais fácil encontrar produtos para cabelos cacheados do que para cabelos crespos, pois o mercado ainda não percebeu que temos cabelos diferentes com necessidades diferentes. O tratamento do cabelo cacheado é melhor e mais fácil, pois muitos ainda veem o cabelo crespo como o cabelo feio e o cacheado como o aceitável. Devemos trabalhar mais essa questão da representatividade dentro do mercado. Fora a importância que essa representatividade traz para nossas crianças ao se verem mais em meios midiáticos e saberem que cabelo crespo não é feio, não é cabelo ruim.

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Foto: Reprodução/Instagram @rosehapuque

ATH: Como é sua rotina de cuidados capilares? Como mais gosta de usar o cabelo e qual é sua finalização predileta?

Rose Hapuque: Como trabalho com minha imagem e cabelo, mantenho uma rotina de cuidados capilares bem planejada por conta da agenda de gravações, pautas e viagens. Lavo o cabelo três vezes na semana. Sou adepta das técnicas liberadas há quatro anos e uso shampoo sem sulfato uma vez na semana. Nas outras duas vezes realizo a técnica co-wash. Em alguns períodos não uso shampoo, apenas o bom e velho co-wash que nosso cabelo crespo ama.

Como aprendi a lidar com meu tipo de cabelo, encontrei também meu estilo e como gosto de me ver diante do espelho. Me sinto bem quando o cabelo está com um belo volumão e bem tratado. Em todas as minhas finalizações, priorizo o volume do cabelo, tanto é que não finalizo com cremes pouco consistentes. Minhas finalizações preferidas e que me dão vários day afters são quando uso gel/gelatina para finalizar juntamente com algum óleo, ou quando faço o método LOC (líquido + óleo + creme). São duas finalizações que deixam meu cabelo incrível, mas não faço fitagem, pois quero bastante volume e menor fator encolhimento possível.

ATH: Quais são os piores erros que a dona de um cabelo crespo pode cometer?

Rose Hapuque: Não trata-o como se fosse cacheado, porque ele não é. Nunca cometa o erro de não aceitar a textura, pois só a partir daí você conseguirá aprender como cuidar melhor do seu cabelo e buscar tratamentos próprios para ele. Não lave o cabelo todo dia: nosso cabelo já é seco por natureza e a lavagem diária ou uso contínuo de shampoo com sulfato pode deixá-lo ressecado e sem vida. Pentear o cabelo a seco nem pensar, pois danifica os fios e pode causar grande quebra capilar. Sempre desembarace o cabelo úmido com algum creme para facilitar o processo.

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Foto: Reprodução/Instagram @rosehapuque

ATH: Apesar da transição estar em alta, muitas dicas ainda são voltadas para os cabelos cacheados. Elas funcionam ou o tratamento com o cabelo 4C deve ser diferenciado?

Rose Hapuque: Algumas dicas funcionam e outras não. Vejo muitas meninas cacheadas que enrolam o cabelo com papel higiênico e até canudos. Técnicas de texturizações como essas são complicadas para uma menina 4C que está lá com a raiz super alta e bem crespa crescendo e as pontas alisadas. Por exemplo, no quarto mês de transição, não conseguia mais nem prender meu cabelo direito com aquela raiz supercheia e as pontas finas. Já comecei a recorrer a tranças nagôs. Hoje, muitas meninas 4C recorrem às box braids ou até mesmo as famosas laces. Mas sim, um cabelo 4C em transição é muito diferente de um cacheado, pois ambos possuem necessidades totalmente diferentes. Desde a transição, nosso cabelo já começa a pedir óleos e bastante hidratação para se manter saudável.

ATH: Quais produtos e acessórios você considera essenciais para quem acabou de assumir os fios crespos?

Rose Hapuque: Primeiro, saiba que você não precisa comprar todos os produtos que indicam por aí. Faça um kit básico com um bom shampoo hidratante, uma máscara de tratamento poderosa, que não necessariamente precisa ser cara e, sim, boa, um creme de pentear com uma consistência grossa e que, de preferência, contenha óleos. Óleos vegetais nunca são demais, é importante sempre tem um bom óleo ou manteiga à mão, tanto para umectações como tratamentos e finalizações.

Gosta de volumão? Jogue-se nos pentes garfos. Demorei a aprender a usar, mas hoje em dia amo demais. E, se você não tem paciência de esperar o cabelo secar ao natural, é sempre bom um secador com difusor, mas confesso que não sou muito adepta porque acho que resseca muito nosso 4C.

ATH: Como você se sente sabendo que é referência para tantas outras pessoas?

Rose Hapuque: É incrível demais! Nem nos meus maiores sonhos imaginei que um dia me tornaria referência e representação para as mulheres. Sinto que não é apenas um canal no Youtube, um blog, ou rede social, mas sim um meio de comunicação que toma a voz de mulheres de cabelo crespo e traz representatividade para elas.

Sinto a responsabilidade de sempre estar fortalecendo a autoestima delas e trazendo empoderamento estético. É legal a ponte que faço hoje entre as pessoas que me acompanham e o mercado. Ao mesmo tempo, é surreal perceber o quanto é forte o laço de credibilidade e confiança que criei com as milhares de pessoas que me acompanham. Sei que elas e eles são as maiores referências que possuo na minha vida para parâmetro do que minhas redes sociais querem ecoar para o mundo.

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Foto: Reprodução/Instagram @rosehapuque

ATH: Quais são as principais diferenças entre a Rose de antes e depois da transição capilar?

Rose Hapuque: Poderíamos passar horas falando sobre isso. Mudei muito, exteriormente e internamente, após assumir o cabelo natural. Na transição capilar, passei por muitos momentos que fizeram com que me sentisse uma mulher cada vez mais forte na caminhada para o fortalecimento da minha afirmação identitária.

Ao longo da minha pós-transição fui perdendo a timidez, insegurança e medo de ser mulher. Falo medo porque até então não me via como uma mulher “ideal”, não me achava bela.  E autoestima é uma coisa que meche com todo nosso corpo, pois se reflete não só no nosso exterior, mas também nos nossos atos. Hoje vejo que aquela menina extremamente insegura se tornou uma mulher superforte e resistente, capaz de ajudar no fortalecimento da autoestima de tantas outras mulheres. Todos que conhecem minha história sabem o quanto mudei e o quanto mudo a cada dia que passa, até porque se tem uma coisa verdadeira em nossas vidas, é que nascemos todos os dias para viver melhor.

Sugestão de produtos ATH

Para os cabelos crespos, indicamos o Shampoo Seda Keraforce Original e Condicionador Seda Keraforce Original. Complete a lavagem com o Creme De Pentear TRESemmé Selagem Capilar Crespo Original.

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