Cabelo importa: como me livrei da ditadura dos cachos perfeitos

Jéssica e Rosana contam como conseguiram superar a ditadura dos cachos perfeitos depois de passarem pela transição capilar e assumirem seus fios naturais.

Assumir o cabelo natural e romper com uma estética de beleza imposta durante tantos anos, a dos fios lisos, não é tarefa fácil. Mas e quando você sai de um padrão e se vê presa em outro? É o que tem acontecido com muitas mulheres, que depois de passarem pela transição capilar se viram reféns dos “cachos perfeitos”.

Se identificou? Para mostrar como isso acontece e qual o caminho da aceitação dos fios naturais como eles são, trazemos o depoimento de Jéssica Belém e Rosana Ramos.

Jéssica Belém, 27 anos, atriz e editora de vídeo

mulher sorrindo com cabelo cacheado médio castanho
Foto: arquivo pessoal

“Desde muito nova tive dificuldade para aceitar o meu cabelo cacheado, pois como sabemos o cabelo cacheado/crespo sempre foi um grande tabu. Eu ouvia bastante piadinha sobre o meu cabelo do tipo ‘não entra na água’, ‘cabelo ruim’, ‘cabelo armado’ etc. Tentava gostar dele, mas sempre existia algo contra que me fazia recuar.

Uma vez eu estava com o cabelo molhado, enquanto eu descia a rua meu ele balançava para lá e para cá e eu ouvi: ‘Nossa você já se acha com esse cabelo cacheado, imagina se tivesse cabelo liso?’. Isso mostra o quanto de fato já nascemos em uma cultura a qual o cabelo liso sempre será o melhor.

Seguindo esse contexto, claro que eu iria alisar o meu cabelo. Primeiro vieram os produtos apenas para relaxar, soltar os cachos e depois o famoso alisamento, a progressiva, que eu carreguei comigo por 6 anos. Dos 15 aos 21 alisei o meu cabelo sem parar a cada três meses porque senão aparecia a raiz ficava ‘horrível’.

Foram seis anos refém também da chapinha. Depois de um mês, a progressiva por si só não dava conta, então toda semana eu precisava fazer chapinha. Ficava cerca de duas horas, em frente ao espelho, alisando o meu cabelo. Mas um dia eu tive um estalo. Simplesmente me olhei no espelho e falei: isso já não serve mais para mim. E decidi começar a transição capilar.

Foi uns dos processos mais difíceis que eu passei até hoje, praticamente dois anos nos quais não me sentia bonita, não queria sair porque sabia que iria encontrar mulheres com cabelos lindos e eu estaria com duas texturas. Apesar de muito choro não desisti e consegui passar pela transição capilar.

Hoje meu cabelo é muito importante para mim. Meu cabelo representa a minha força, me mostra que eu não preciso ser igual aos outros, não preciso ser padrão para ser bonita. Sei que não é todo mundo que entende e vê assim, mas preciso que apenas eu mesma me aceite, me sinto livre. Desde então tenho uma frase que carrego comigo: Podemos usar nosso cabelo do jeito que quisermos, mas não podemos esquecer que natural ele é lindo também.

mulher feliz com cabelo cacheado médio castanho
Foto: arquivo pessoal

Mas quando você é uma pessoa vaidosa ou muito apegada com o cabelo, seja ele liso, ondulado, cacheado ou crespo, você quer ele em ‘perfeito estado’. E o que é perfeito estado? Sem frizz? Volumoso? Com definição? Quando eu realmente assumi os meus cachos, ficava horas vendo vídeos na internet sobre finalização e tentava fazer muitas delas, comprava produtinhos, mas sempre me frustrava porque como os cachos ainda estavam se formando, não ficavam como as das blogueiras e eu achava que nunca iria dar certo.

Depois de um tempo, entendi que cada cabelo é de um jeito e que os resultados nunca serão totalmente idênticos. Mas desde o começo já me cobrava para ter os cachos perfeitos. Na minha cabeça eu tinha que estar com eles lindos, afinal tinha feito essa mudança radical, então precisava mostrar que valeu a pena. Por muito tempo usei meu cabelo preso porque eu não conseguia fazer uma finalização que eu gostasse.

Ainda gasto cerca de 40 minutos na finalização, mas a diferença é que hoje eu entendi que não é uma obrigação. Ela é uma atenção a mais com o cabelo, não preciso fazer todos os dias. Às vezes acordo e penso: ‘hoje eu vou fazer aquela finalização’! Já até programo o meu dia para encaixar isso na rotina. Outros dias eu apenas lavo, passo um creme e deixo os fios secarem naturalmente.

Ter que ficar com os cachos perfeitos me impedia de deitar e de descansar assim que eu finalizava os cachos. Se eu sentasse, não poderia encostar minhas costas e cabeça no encosto porque iria estragar meu cabelo. Eu não podia ficar colocando a mão nele.

Mas isso mudou. Hoje a relação com o meu cabelo é de muito amor. Eu amo ter entrado na transição e ter assumido meus cachos. Também tem um pouco de desapego. Tem dias que eu amo o jeito dele e às vezes eu quero surtar porque não fica exatamente como eu quero.

Mas aprendi a não surtar, cabelo é isso mesmo, independente de qual forma for, não podemos ficar reféns disso. Eu amo demais meu cabelo e sempre peço desculpas para ele por um dia lá atrás ter achado ele feio, ruim e querer escondê-lo do mundo.

Meu conselho para quem ainda não se desapegou dos cachos perfeitos é: se olhe no espelho, você é formada por muitas coisas, olhos, boca, mãos etc. Você foi feita de maneira especial e admirável, o seu cabelo é só uma parte de você. Não é ele que dita se você está feia ou bonita, você é um conjunto de muitas coisas.

Respeite o que você está querendo no momento, você quer um cabelo mais definido? Ok, parte para finalização. Hoje não está a fim? Tudo bem, não precisa se apegar a isso, seu cabelo vai ficar lindo de qualquer jeito. Aprenda a ver beleza em cada aspecto dele e você vai ver que tem beleza em tudo. Entenda que o nosso cabelo tem fases como a gente e está tudo bem, faz parte.

E só mais uma coisinha: ignore o que as outras pessoas falam! Isso diz muito mais sobre elas do que sobre nós. Eu, infelizmente, ainda ouço muitas piadinhas sobre o meu cabelo, mas aprendi que não é sobre mim, é sobre elas. Meu desejo é ver crianças, homens e mulheres arrasando com os seus cabelos de todas as formas por aí. Seremos resistência até não precisar mais ter resistência sobre os nossos cabelos.”

Rosana Ramos, 28 anos, estudante de Geografia

mulher com cabelo cacheado longo castanho
Foto: arquivo pessoal

“Assim como muitas mulheres pretas, vivi por muito tempo buscando me encaixar nos padrões impostos pela sociedade. Sempre tivemos como exemplo de beleza mulheres magras, brancas, com o cabelo liso, sem frizz e extremamente sedosos. Algo inalcançável para quem não tem aquele estereótipo.

Para nos sentirmos minimamente bonitas e atender aos padrões de beleza, passamos a buscar métodos para nos encaixarmos na sociedade. E é aí que começam os processos de alisamentos que, na verdade, são uma forma velada de embranquecimento. A ideia era ter o cabelo liso a qualquer custo.

Quando falo das minhas experiências com processos de alisamentos posso afirmar que é  muito desgastante e doloroso. Geralmente os alisamentos não trazem um resultado tão bom, o que leva a repetidas químicas e ao uso excessivo de ferramentas de calor como chapinha e secador. Esses hábitos, além de danificar o cabelo, são demorados e repetitivos.

Durante os mais de 14 anos em que alisei o cabelo, passei por muitos cortes químicos e os fios eram extremamente frágeis. Mas em 2017, quando navegava pela internet, vi um vídeo de hidratação caseira com Maizena e o resultado era surpreendente: a moça do vídeo tinha o cabelo cacheado e bem definido.

mulher com cabelo alisado de lado
Rosana com o cabelo alisado | Foto: arquivo pessoal

Naquele momento, decidi que iria deixar meu cabelo natural mesmo sem saber como era minha curvatura, mas imaginei que seriam cachos perfeitos. Passei pela transição capilar e já tenho cinco anos de cabelo natural.

Sempre optei por produtos que traziam definição, pois o cabelo natural era lindo quando estava definido, sempre que saía meus cabelos tinham que estar super definidos ou então eu precisava que finalizá-los novamente. Foi aí que eu percebi que estava entrando em um padrão dos cachos perfeitos. Eu não poderia sair com o cabelo sem definição porque era feio? Mas por que feio?

A finalização perfeita leva em média 25 minutos se o cabelo for longo, e isso depende muito da curvatura do fio e da técnica escolhida por cada pessoa. Além disso, a dependência por gelatinas e géis se tornou maior.

Os cachos “indefinidos” nunca me impediram de sair, pois sempre que não gostava da forma como estavam os fios eu optava por sair de coque, que inclusive é um dos penteados mais comuns e fácil entre as crespas e cacheadas.

Atualmente vivo uma relação muito tranquila com meu cabelo. Enfim entendi que ele tem uma forma de “vida própria”, que escolhe se quer ficar definido, com muito ou pouco frizz, com volume ou sem volume. Aprendi a aceitar meu cabelo em suas diversas formas, hoje tenho a liberdade de ser e deixar meu cabelo ser livre.

Minha dica para quem tem o cabelo crespo e cacheado é aceitar os humores e fases do cabelo. Ele, assim como nós, tem suas fases e temos que aceitá-las e acolhê-las com amor. Isso faz parte de nossa identidade e, sem dúvidas, é uma das maiores demonstrações de aceitação e liberdade.”

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