Sá Ollebar: “hoje me sinto livre para experimentar tudo nos cabelos”

Aline Bibiano | 09 julho 2018
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YouTuber conta como conseguiu aumentar a autoestima assumindo os seus fios naturais!

Sá Ollebar superou todos os preconceitos sofridos desde infância e adolescência para ser tornar uma mulher inspiradora. Sua história é muito profunda e ela nos conta como começou a carreira como youtuber, no canal Preta Pariu, e como o empoderamento ajudou a se aceitar como realmente é e assumir os fios naturais.

All Things Hair entrevista Sá Ollebar

All Things Hair – A infância às vezes é bem difícil paras as mulheres negras pela falta de representatividade, o que acaba afetando a autoestima.  Qual a sua relação com o cabelo na infância, você teve inspirações e referências na mídia e na sociedade no geral?

Sá Ollebar – Nossa, minha relação com o cabelo na infância se resumia em vergonha e tristeza. Lembro-me de chorar por causa do cabelo e essa provocação acontecia fora e dentro de casa. Tirando meu pai, eu era a única com cabelo crespo na família. Até poucos anos atrás, a voz da minha mãe ainda ecoava na minha cabeça: “Ah, você puxou o cabelo ruim do seu pai”. No colégio ou na rua era o que eu mais ouvia.

Na pré-adolescência comecei a me interessar por tranças e foi um alívio porque isso era mais ‘aceitável’. Na época box braids não eram tão cool como hoje em dia, mas recebia menos olhares tortos do que meu cabelo crespo alisado.

Cabelo pra mim era sinônimo de trabalho árduo e isso se intensificou na adolescência com a popularização das escovas definitivas . Meu cabelo sempre teve um crescimento absurdo e por conta disso, eu precisava alisar o cabelo duas vezes por mês, mas como o dinheiro não acompanhava o crescimento do cabelo eu fazia todo o processo em casa. Era superdesgastante, levava um dia inteiro pra alisar e passava 15 dias fazendo mil e um tratamentos para o cabelo não cair, completado os 15 dias alisava novamente.

Foto: repordução | Instagram @saollebar

ATH – Você passou pelo big chop? Como, quando e onde aconteceu essa experiência?

SO – Em 2011 foi o limite pra mim, não aturava mais aquele cabelo alisado, que me dava tanto trabalho. Estava vivendo um momento de extrema baixa autoestima. Uma noite, sentei com meu companheiro e comecei a ver os recortes de revista negras africanas carecas. E como naquela época não conhecia muito sobre big chop ou transição capilar, essa era a única maneira de me ver livre do alisamento. Foi então a primeira vez que raspei e assumi minha verdadeira identidade.

ATH – Em que momento a Sá Ollebar virou o canal Preta Pariu no Youtube?

SO – Em 2013, me reuni com um grupo de amigas no Facebook, então comecei a entender essa ferramenta. Quando percebi já estava moderando vários grupos. Um dia, uma amiga pediu pra que eu gravasse um vídeo mostrando como fazer uma amarração de turbante, no outro dia outra pediu o mesmo e assim foi. Quando percebi já estava em todas as redes sociais. Começou como Blog da Sá e em seguida veio uma nova fase de redescobrimento e nasceu Preta Pariu.

ATH – Amamos o seu perfil nas redes sociais e vimos você com vários tipos de cabelo. Qual a relação do seu cabelo com a sua autoestima?

SO – Olha, essa pergunta me fez refletir bastante sobre quem é Sá Ollebar. Antes de conhecer meu cabelo natural, acredito que procurava encontrar uma forma de levantar minha autoestima. Depois que assumi meu crespo me senti tão perfeita com ele e cheguei a pensar: “Pronto é isso, agora não preciso mais mudar”. Mas agora com a autoestima resgatada eu percebi que não havia motivo para receios. Hoje me sinto livre para experimentar tudo nos cabelos. Comecei a descolorir e colorir os fios freneticamente e amei isso, depois fui apresentada para a Lace Wig. Então percebi que o cabelo é apenas um mero detalhe para o autoconhecimento.

Foto: repordução | Instagram @saollebar

ATH – Um dos seus vídeos no YouTube foi bem impactante e lindo. Você comentou que raspar a cabeça é liberdade. E mostrou também que é uma questão de gosto. Qual conselho você dá para as meninas que estão passando ainda por um processo de aceitação e transição capilar?

SO – Meu conselho é: não faça nada se não for apenas por você! Tenho um certo receio de modismo e as regrinhas que vêm incluídas. Por isso, digo: faça apenas por você mesma, não existe regrinha porque esse processo tem que acontecer de dentro pra fora e não ao contrário. Já vi várias meninas que foram na onda da transição e depois voltaram a alisar seus cabelos, trazendo um sentimento de fracasso enorme.

Já repararam que quando uma mulher assume seu cabelo natural ela muda tudo? Seu jeito de se vestir, andar, olhar etc. Acontece porque uma coisa não está separada da outra, por isso é importante olhar para dentro e respeitar seu tempo.

ATH – Por último, que dica de cuidados com os cabelos e careca você não abandona?

SO – Bom, apesar de ter raspado o meu cabelo, ainda cuido dos cabelos dos meus filhos. O da Ester é 3A, da Lara 2B e Alfred é 2A. Para eles eu sigo o cronograma capilar (hidratação, nutrição e reconstrução) de acordo com cada tipo de cabelo.

Na minha vida de carequisse os cuidados não são tão específicos porque como já cuido da pele o que faço é estender esses cuidados para a cabeça. Não saio de casa sem protetor solar, prefiro produto com fator proteção de 60 ou 70. Estou aprendendo a usar chapéu, para aumentar a proteção nos dias mais quentes ou quando saio em horário que a exposição solar não é segura. E como raspo a cabeça a cada três dias uso óleo de coco para não deixar o couro ressecado. Outro ponto é que dou preferência para shampoo anticaspa, porque quando estamos carecas a oleosidade natural não tem fios para percorrer então a sensação é que agora temos o triplo de oleosidade.