Rayza Nicácio sobre ser negra: “Só comecei a ter essa consciência quando me questionaram na internet”

Tamires Crispim | 19 julho 2017
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A vlogger fala sobre seu reconhecimento como mulher negra.

A diversidade é uma das características mais marcantes do Brasil e são muitos os tons de pele que encontramos por aqui. A vlogger Rayza Nicácio sabe que tem muita gente perdida nessa escala de gradação e já sofreu por ter uma pele considerada “clara demais” para ser negra, “mas não clara o suficiente” para ser branca. Nessa entrevista exclusiva e emocionante para All Things Hair, Rayza abre o coração e fala sobre como é ser uma mulher negra nesse contexto, além de contar como foi seu processo de reconhecimento e desconstrução até chegar aqui.

ATH entrevista Rayza Nicácio 

modelo de ser negra
Foto: Reprodução/Instagram @rayzanicacio

All Things Hair: Ray, seu canal é um importante espaço de fala. Há pouco você fez um vídeo emocionante sobre sua própria questão racial. Quando você atingiu a consciência de que era negra?

Rayza Nicácio: Só comecei a me questionar sobre ser negra ou não depois de criar meu canal no Youtube, porque apesar de sempre ter inspirações de mulheres negras e fortes como Beyoncé, Rihanna (eram minhas popstars favoritas), meio que me via nelas, mas não tanto, não sei explicar. Sabia que não era branca, me chamava de parda, porque era assim que me classificavam – mesmo sem ter a consciência de que pardos e pretos estão classificados dentro da classificação de negros. Então, só comecei a ter essa consciência e pesquisar sobre isso quando as pessoas me questionaram na internet. Tive esse processo de tentar compreender, sabe?

ATH: Em um vídeo no canal do youtuber Felipe Neto, em 2014, você se definiu como parda. Como foi o processo de desconstrução e descobertas que a levaram a entender que não havia nada de errado com a cor da sua pele?

Rayza Nicácio: Me declarei como parda porque foi o que ouvi que era a vida inteira, achava que era um termo que não ofenderia nem as pessoas negras de peles escuras, nem as pessoas brancas. Falei: está tudo bem em ficar nesse meio termo. Só que depois percebi que pardo foi só mais uma palavra criada para tentar embranquecer as pessoas que são negras, porque apesar de existir vários tons de pessoas brancas, quando elas são brancas, elas são só brancas, e negros, só por terem a pele mais claras, chamam de pardo, sabe? Então, não é ofensa nenhuma me chamar de negra. Se me visse como negra desde sempre nunca teria problema de ter falado que era negra.

ATH: A mistura de cores da sua família era algo que chamava sua atenção quando pequena? Vocês tinham o hábito de falar sobre o tom da pele, traços e cabelo?

Rayza Nicácio: Não, nunca. Ninguém nunca falou sobre isso na minha casa, na minha vida, só a minha vó que falava que eu não era negra porque “não era muito escura e porque meu cabelo crescia para baixo”, que “negro só é quem tem o cabelo mais crespo e é mais escuro, não é cacheado”, sabe? Mas, fora isso, ninguém nunca falava sobre isso, sobre quem era ou não negro na família, até porque é uma confusão. Era muito difícil definir, principalmente quando não há consciência sobre o assunto.

modelo de ser negra
Foto: Reprodução/Instagram @rayzanicacio

ATH: Você já disse que não tinha uma boa relação com seu cabelo quando criança. Nessa época a cor da pele também te incomodava?

Rayza Nicácio: Minha mãe disse que já questionei: “Mãe, por que o Jhonatas (meu irmão) é mais clarinho que eu?”. Ela falou que era porque ele tomava menos sol e, no fim, era verdade, porque hoje somos da mesma cor. Mas nunca me achei escura, nunca reclamei. De falar: “Ai, mãe, não sou tão branquinha”, isso nunca aconteceu.

ATH: Você já sofreu preconceito racial? 

Rayza Nicácio: A própria ideia de que meu cabelo não era bonito é uma forma de preconceito racial. Eu tenho o cabelo cacheado e crespo, que é uma característica de pessoas negras. Não que um pessoa cacheada seja necessariamente negra, mas como meu cabelo é crespo sofri muito por isso dentro da minha própria casa, às vezes com piadas do tipo: “se você for jogada da janela seu cabelo vai te amortecer” e coisas do gênero. Hoje enxergo como preconceito racial.

ATH: O que mudou na sua vida após essa autoaceitação? De que maneira, sua visão de mundo mudou?

Rayza Nicácio: Antes não era muito atenta a isso, mas hoje em dia quando estou nos ambientes sempre percebo quantas pessoas negras estão ali e qual a função delas. Por exemplo, se for a um restaurante mais elitizado, é muito difícil encontrar pessoas negras que são clientes. Geralmente são os garçons, as recepcionistas, as pessoas que estão trabalhando lá. Não tinha essa consciência antes. Antigamente, quando entrava em um lugar e as pessoas olhavam para mim, achava que era porque meu cabelo era volumoso. Hoje sei que é pelo meu cabelo ser volumoso e também por ser negra e estar frequentando lugares onde a maioria das pessoas é branca. Sou “diferente” dessas pessoas. Hoje tenho muito mais consciência e fico reparando muito mais nisso. Honestamente, às vezes sinto saudade de quando era ignorante.

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Foto: Reprodução/Instagram @rayzanicacio

ATH: Como foi fazer um vídeo para comunicar isso para seu público? 

Rayza Nicácio: Era uma coisa que já queria fazer há muito tempo, mas já sabia que ia gerar um burburinho, então estava tentando ser cuidadosa com relação a isso. Mas percebi que tenho que ser honesta com todas as fases que estiver passando, que agora é de aprendizado e reconstrução, e ser clara em relação a isso com as pessoas, sabe? Mas foi muito bom, fiquei muito feliz, porque muitas outras pessoas também se encontraram nesse sentido e se sentiram representadas por estarem no ”limbo”.

ATH: Qual a mensagem você deixa para as pessoas que têm os mesmos questionamentos que você já teve um dia sobre a cor da pele?

Rayza Nicácio: Acho que cada pessoa tem seu tempo, cada pessoa tem seu processo. Se em algum momento esses questionamentos forem trazidos para você, o mais importante é ter consciência, pesquisar, assistir a vídeos no Youtube, ler bastante sobre o assunto para a gente passar por esse processo de desconstrução de forma leve, mas cheia de aprendizado.

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