Coluna da Gabi: Notas sobre cabelo e construção da autoestima

Gabi Vasconcellos
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Em sua primeira coluna em All Things Hair, Gabi Vasconcellos faz um relato sensível sobre a importância do empoderamento no seu processo de autoaceitação. 

Prestes a completar 24 anos, me peguei pensando na Gabriela de 14. Aquela que não podia se olhar no espelho e ver um dedo da raiz do alisamento crescida. Era o suficiente para me fazer perder a vontade de sair de casa, me sentir feia e esquisita. Voltando ainda mais, a Gabriela de 12 – antes de entrar na “progressiva” – era cabisbaixa, pequena e escondida no meio de tanto cabelo, tanto volume, tantos problemas de autoaceitação.

A redescoberta da minha identidade foi um processo longo e nada, nada fácil. Nosso cabelo tem um impacto gigante na imagem que temos de nós mesmas e também naquela que passamos para o mundo. É um componente fundamental do nosso ser, e, como tal, tem influência direta na nossa autoestima.

Me entristece ver pessoas reduzindo a aceitação do cabelo natural cacheado e crespo a moda, algo que está “em alta”. Até porque, moda costuma ser algo passageiro.

Não é à toa que somos um dos maiores mercados do mundo em produtos direcionados a tratamentos capilares. E por isso me incomoda tanto quando tratam nossa preocupação e nosso cuidado com os cabelos como “futilidade”.

Da mesma maneira, me entristece ver pessoas reduzindo a aceitação do cabelo natural cacheado e crespo a moda, algo que está “em alta”. Até porque, moda costuma ser algo passageiro. A noção de que esse importante trabalho de fortalecimento e empoderamento que dezenas, centenas ou mesmo milhares de brasileiras estão passando nesse momento não pode ser reduzido a uma vontade momentânea, algo efêmero.

Esse processo abala muitas certezas que foram construídas ao longo de toda uma vida. Aumenta nossa insegurança. Nos faz confrontar medos que já estão entranhados. Mas compensa tanto. Essa sensação de liberdade, esse encontro comigo mesma, é imensurável.

A dor de me aceitar foi a mais recompensadora que já tive na vida.

Por isso eu preciso gritar, preciso continuar falando que cabelo é autoestima sim. Que aceitar nosso cabelo natural, do modo que ele é, é uma luta diária. De empoderamento feminino, de recuperar quem somos em essência. De aprender cotidianamente a modificar nosso olhar sobre o outro e sobre nós mesmas.

A dor de me aceitar foi a mais recompensadora que já tive na vida. E se hoje me vejo e me coloco para o mundo como alguém empoderada, feliz e linda, é pela certeza de que meu cabelo é parte de mim.

Como eu sempre digo: sou muito mais do que meu cabelo, mas ele diz muito sobre a mulher que escolhi ser.