#AmoMeuCabelo: “A gente tem que estar à vontade dentro do que a gente é”

Suzana Alves conta a sua trajetória de quebra de padrões desde quando explodiu com a personagem “Tiazinha” até estar confortável com quem realmente é, deixando o cabelo grisalho natural.

Libertar-se de padrões estéticos é especialmente difícil para as mulheres, que desde jovens se veem obrigadas a atingir algumas expectativas impostas pela própria sociedade no que diz respeito à beleza. Quando você mesma é o padrão, fica ainda mais difícil. Foi isso que a atriz Suzana Alves precisou fazer.

No final dos anos 90, aos 19 anos, ela explodiu como Tiazinha, personagem sensual de um programa de TV da época, inspirada na mulher-gato, que usava máscara e lingerie pretos, um chicote e interagia com a plateia masculina. Esse papel fez com que a profissional ficasse famosa, mas que também ditou os padrões de beleza de uma época, com o quais ela mesma teve que lutar para trilhar o caminho do autoconhecimento.

Veja abaixo, o relato de Suzana, que agora é atriz, empresária e estudante de Psicologia e conta como foi esse período até hoje, quando decidiu recentemente deixar o cabelo branco natural.

“No começo tem essa sensação de ser o centro das atenções, de estar na crista da onda mesmo, de ser querida, de ser amada. Eu me sentia famosa, rica, chique, poderosa. Mas eu nunca mudei meu jeito de ser. Depois, conforme foi passando o tempo, fui sentindo que não era real, que era uma sensação mais ilusória mesmo. Tanto que eu quis logo retomar meus estudos. Não fiquei muito tempo me achando tudo isso, não. Porque não era consistente, né? A gente percebe que nada segura essa sensação interna, não é a estética que segura.

Sua personalidade não está formada, a autoestima não está trabalhada… Eu era muito jovem, tinha 19 anos. Então, eu via que nesse caminho não estava tendo retorno intelectual, emocional, psicológico. Eu queria mais. Queria me aprofundar mais”.

Jornada de desconstrução de padrões

“Desconstruir essa imagem foi bem intenso e interessante porque foi o processo de construção da minha personalidade, em que eu fui descobrindo outras belezas, não só a estética. Quem eu era, o que sentia, o que eu gostava realmente… Foi uma decisão que, para muitos [para quem via de fora], foi surtante. Foi bem no auge [da personagem] que eu decidi me conhecer, não imaginava como ia ser o processo, que eu ia sofrer tanto. Eu não imaginava como ia ser a jornada. Eu tinha anseios grandes e segui muito meu instinto de fazer aquilo que eu amo, de buscar um caminho bem sólido. Era a rota que eu tinha a certeza de que era o melhor caminho.

atriz suzana alves com coque alto
Foto: reprodução | Instagram @suzanaalvesoficial

Queria voltar para a rotina que eu tinha antes da fama, então eu escolhi esse caminho. E se eu escolhi, é porque eu sabia que ia dar conta, por mais que tenha sido sofrido. Existiam críticas externas, preconceito e muita coisa que eu tive que vencer nessa jornada que, se não tivesse largado tudo e buscado meu autoconhecimento, talvez tivesse continuado sempre lá, mantendo minha vida na fama, naquele glamour. Eu teria sofrido muito mais ou teria me anestesiado e mantido a máscara não só física, mas as máscaras internas estariam aqui ainda e eu não teria me desenvolvido como eu continuo até hoje.

Fui estudar, comecei a fazer peças de teatro, me formei na faculdade de Jornalismo e fui morar um tempo fora do país. Tive que ser radical porque, se eu não fosse, ainda teria resquícios de mal-estar, de não me sentir plena. Se eu não rompesse, não ia conseguir abrir um olhar mais claro sobre o meu futuro profissional.

Eu gosto de ser uma pessoa que muda, cresce e aprende com as dificuldades. Eu olho pra trás e eu penso: ‘Nossa, parabéns. Você seguiu quem você é’. E não tem coisa mais prazerosa que isso. Não há arrependimentos quando se vive uma vida original. Foi difícil, eu abri mão de muita coisa, de muito glamour, de muito dinheiro, de coisas que estavam bem tranquilas. Mas não adianta nada se você não está confortável dentro daquela vida. Se você não se sente plena dentro do que você faz, pode até adoecer. E isso eu não falo só da minha profissão. Eu falo de uma pessoa que tá em qualquer posição e não está feliz, que gostaria de fazer outra coisa, por exemplo.”

A primeira mudança da cor do cabelo

“Fui fazer uma peça de teatro inglesa e pintei meu cabelo de ruivo, porque era mais o perfil da personagem. Eu queria romper com aquele estereótipo, porque aquele padrão ficou muito marcado. Meu cabelo sempre foi bem preto, lembro que eu nunca tinha pintado antes.

Fiquei em conflito, mas fui para o palco com o cabelo ruivo. A raiz preta não parava de crescer e fui ficando doida, porque sempre fui natureba, gostava de produtos naturais e de repente estava pintando meu cabelo… então eu também não estava confortável.

Mas tudo isso era o reflexo da busca por uma identidade. Não pela identidade do que tinha me tornado famosa. Mas pela minha real identidade. Eu acho que isso é algo que todas as mulheres deveriam passar, porque, não importa a profissão, quando se é um ícone, se é artista… todo mundo passa por essa busca e, se não passa profundamente, vai estourar em algum momento e refletir em algum lugar”.

O cabelo branco natural

“Sempre que eu chegava em algum lugar e via uma mulher jovem com o cabelo branco, parava para elogiar porque achava lindo. É uma coisa que me fascina. Lembro que antes da pandemia eu estava em Belo Horizonte (MG), fazendo uma peça, quando vi uma mulher em um restaurante e fiquei muito impressionada com o cabelo dela e a juventude dela. E eu não consigo ficar parada quando eu vejo algo muito legal, que admiro. Eu parei para conversar com ela.

Geralmente eu tinha essas atitudes, mas eu nunca pensei “ah, eu também vou fazer agora”. Sempre admirava. Mas no começo da pandemia não podia ir ao salão, estava tudo fechado, então eu aproveitei para me desintoxicar. Eu sempre fui adepta a produtos naturais. Tenho minha horta, planto, cozinho, faço a minha própria comida. Eu gosto muito de viver uma vida saudável, faço ginástica, sempre me cuidei, faço ioga, pilates… só que o cabelo era a única coisa que ainda me prendia.

suzana alvez segurando os cabelos
Foto: reprodução | Instagram @suzanaalvesoficial

Desde quando nasceram os primeiros cabelos brancos eu comecei a pintar, com uns 30 e poucos anos. A cada 20 dias eu fazia a raiz e meu cabelo nunca mais foi o mesmo. Eu senti que ficou fraco e ralo, mas eu achava que era da idade, dos hormônios e que depois dos 30 mudava mesmo. Todo mundo falava isso. Quando eu engravidei piorou, começou a cair muito depois e continuei fazendo raiz, mas não estava feliz. Porque eu sempre tive um cabelo muito bonito, muito forte e cheio. Era elogiada pelo cabelo e nunca mais ouvi ninguém falar que meu cabelo era bonito. Simplesmente ficou ralo, comecei a ficar calva, do lado direito e do lado esquerdo, na parte da frente.

Comecei a ficar muito preocupada, mas até então não tinha caído a ficha de que podia ser a tinta. Na pandemia, então, comecei a me libertar e a deixar fluir. Minha unha passou a crescer dura porque eu não pintava mais e o meu cabelo, a nascer nesses lugares em que eu estava calva, e a nascer muito! E a qualidade dele está impressionante. Está aquele cabelo meu de 20 anos atrás, mas com umas mechas brancas. Um cabelo forte. Percebi isso de cara.

Desde então, estou me sentindo bem à vontade. Não tem um dia desde que eu comecei a deixar natural que eu tenha dúvida. A vaidade está muito nas mulheres de cabelo branco também, eu mesma fiquei muito mais vaidosa.

Escolhas que refletem quem se tornou

Acho que é isso: lá atrás eu sempre fiz escolhas pra me sentir à vontade dentro de mim, então eu só estou refletindo o que eu sou. Não sou diferente do que fui há 20 anos, quando decidi continuar a minha história e a buscar a minha essência. Isso aqui é só um reflexo de quem eu sou. A gente tem que estar à vontade dentro do que a gente é.

suzana alves com cabelo solto
Foto: reprodução | Instagram @suzanaalvesoficial

As mulheres estão descobrindo novos caminhos. Por que o homem é charmoso de cabelo branco e a mulher não? Daqui a pouco as pessoas vão acostumar que tem muita gente com cabelo branco na rua, então isso também vai virando um hábito. Você começa a ver a beleza em um outro lugar, onde realmente importa. Quando você vê pessoas tomando posições diferentes do padrão, é que chama atenção. E isso é bacana porque vai popularizando novos conceitos, faz com que as pessoas reflitam”.

E qual o conselho da Suzana para quem quer ficar naturalmente grisalha também?

“O conselho que eu dou é para buscar o autoconhecimento. Talvez para essa pessoa seja melhor o autoconhecimento primeiro e para outras o cabelo vai levar ao autoconhecimento. Cada um é um mundo. Talvez, se eu tivesse feito o caminho contrário, não daria certo. Porque o autoconhecimento é constante, não é só um momento da vida, ele continua sendo e o cabelo branco, nessa transição, está fazendo eu me conhecer mais ainda. Tudo é um processo na vida, quando a gente faz pelo outro ou porque alguém fez e está todo mundo fazendo, não encaixa. Melhor continuar pintando porque o propósito ainda não foi despertado e isso que tem que ser acionado dentro da pessoa. Não é moda, não deveria ser.

Talvez daqui a um ano eu fale: ‘Acho que agora vou experimentar dessa outra forma. E tudo bem. É ter essa liberdade dentro daquilo que eu acredito’”.

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