Neggata: “A falta de representatividade me impulsionou a usar a internet como um instrumento de fala”

Tamires Crispim
×

Confira o que Neggata tem a dizer nessa entrevista exclusiva para All Things Hair.

Ela se chama Lorena Monique, mas na internet é conhecida apenas como Neggata. Esse, aliás, também é o nome do canal do Youtube onde ela aborda temas como cultura negra e empoderamento feminino, mostrando toda a sua atitude. Dona de um estilo único, é movida por mudanças e seu visual não nega essa característica, já que ela sempre está com um cabelo diferente.

ATH entrevista Neggata

modelo de neggata
Foto: Reprodução/Instagram @neggata

All Things Hair: Como surgiu a ideia de usar a internet para falar sobre empoderamento feminino e negro?

Neggata: A ideia surgiu a partir do momento em que entrei em uma loja de cosméticos e uma vendedora, que era branca, sugeriu que meu cabelo precisava diminuir mais o volume e me indicou vários cremes para meu crespo, aqueles que relaxam mais a raiz e diminuem o volume. A partir dali percebi o quanto o empoderamento feminino e negro era importante e fui procurar mais sobre o assunto na internet, só que não achava temas direcionados a pessoas negras, ao feminismo. A falta de representatividade me impulsionou a usar a internet como um instrumento de fala sobre questões raciais, autoestima, feminismo negro, e outras coisas importantes.

ATH: Hoje você demonstra uma boa relação com a sua beleza e cabelo afro. Ela sempre foi assim?

Neggata: Não mesmo, foi um processo árduo. Desde cedo olhava para as meninas da minha escola que tinham o cabelo alisado e ansiava por aquilo. Chegava em casa e pedia para minha mãe me levar ao salão e alisar tudo, e assim foi: passei variados tipos de cremes, relaxamentos e selantes que me queimavam e machucavam. Rejeitava qualquer tipo de cabelo afro em mim, até que um dia me perguntei o motivo de não gostar do meu próprio cabelo. Fiz uma amizade que me ajudou bastante nesse processo de assumir meu cabelo natural e também entrei na faculdade, que era um contexto muito diferente do colegial, menos nocivo quanto a ser eu mesma, já que lá era a única negra da sala e considerada a ‘’mais feia’’. Desde então nunca mais chapinha ou produtos que queimassem meu couro cabeludo.

ATH: Você sempre está mudando o visual e é uma grande adepta das tranças box braids. Como você mais gosta de usar o cabelo?

Neggata: Gosto de usar meu cabelo da forma que me sentir bem, sabe? Então depende do momento. Às vezes enjoo dele crespo e faço box braids, ou enjoo das tranças e volto para p crespo, faço crochet braids, tranças raiz, uso laces… Essa versatilidade do cabelo crespo, que se adapta a tudo, é ótima. Existe até uma expressão na internet que diz que se você estiver namorando uma mulher negra você vai estar namorando com várias pessoas ao mesmo tempo (risos).

modelo de neggata
Foto: Reprodução/Instagram @neggata

ATH: O que gostaria de fazer com o seu cabelo que ainda não fez? Tem algo que nunca faria?

Neggata: Bom, gostaria muito de futuramente raspar a cabeça e colocar alguma cor nele, acho lindo demais mulheres com a cabeça raspada. Nunca diga nunca né, mas acho que algo que está fora do alcance agora ou futuramente é a ideia de passar algum produto que vá alisar meu crespo novamente, mas quem sabe não apareça aí com uma lace lisa!

ATH: Quais são os seus penteados preferidos?

Neggata: Gosto muito do afro puff, me apaixonei quando vi a Cindy, de Orange Is The New Black, usando. Gosto também de tranças raiz e dos topetes feitos em cabelo crespo.

modelo de neggata
Foto: Reprodução/Instagram @neggata

ATH: Você passou alguns meses viajando pela Europa. Como era a rotina de cuidados capilares? Qual produto ou acessório foi indispensável para você nesse período?

Neggata: Nossa, o clima de lá fez meu cabelo ficar muito ressecado por conta do inverno, era frizz direto, então a rotina era tentar passar algum óleo capilar para que diminuísse esse ressecamento. Também usei tranças para não ter tanto trabalho em ter que ficar hidratando todos os dias no frio europeu. Meus produtos indispensáveis eram sem dúvidas a manteiga de karité e o óleo de coco.

modelo de neggata
Neggata usou tranças enquanto viajava | Foto: Reprodução/Instagram @neggata

ATH:  Quando está usando o black power, como você costuma cuidar dos fios?

Neggata: Hidratação duas vezes na semana, com produtos caseiros mesmos, como açúcar, mel, café, azeite e babosa, que traz nutrição aos fios.

modelo de neggata
Foto: Reprodução/Instagram @neggata

ATH: Qual considera a maior diferença entra a Monique de antes e depois da transição capilar?

Neggata: A diferença da Monique de antes e a de agora é saber quem sou hoje e entender que o que passei antes foi um processo para ser a Monique dos dias atuais. Me reconhecer enquanto mulher negra, reconhecer que sou linda e forte da forma que sou, independente de ser crespa, cacheada, lisa, é uma vitória não só para mim, mas para outras meninas negras que estão passando ou já passaram por uma fase de auto reconhecimento. Espero cada vez mais trazer a ideia de que BLACK IS POWER. Gosto muito da filosofia africana, que é ”Ubuntu: eu sou porque nós somos’’.

Continuar lendo