Luiza Brasil em: precisamos falar sobre a representatividade das mulheres negras

Para celebrar o Mês da Mulher, batemos um papo com seis influenciadoras de ATH com diferentes perfis e trajetórias para traçarmos um panorama do que é ser mulher no Brasil. Luiza Brasil, do Mequetrefismos, é a entrevistada do dia: a influenciadora digital compartilhou com a gente um pouco de sua história e fala sobre a importância das mulheres negras ocuparem espaços e quebrarem paradigmas

“De olhos expressivos e cabelos deslumbrantes”. É assim que Luiza Brasil, a Mequetrefismos, se define em sua bio no Instagram. Mas basta rolar seu feed para descobrir que, além de ser uma rainha, a influenciadora carioca tem muito a agregar nas principais questões da atualidade.

Tanto em seu perfil do Insta quanto no seu site, ela aborda temas como beleza da mulher negra, cultura afro, moda e comportamento. Suas opiniões e seu posicionamento são extremamente relevantes para a sociedade atual e, por isso, convidamos você a ler esta entrevista incrível que ela concedeu para o ATH:

ATH: Como você se sente em ser uma das mulheres mais influentes nas mídias sociais atualmente quando o assunto é cultura negra?

LB: Ser uma das mulheres mais influentes nas mídias sociais quando o assunto é cultura negra, obviamente, é uma honra. Eu fico muito lisonjeada porque isso diz muito sobre uma geração que daqui há 30 anos ou até menos, irá entrar para uma história em termos de ressignificação das pautas raciais, do que é ser mulher, do recorte interseccional do que é ser mulher negra e do que é transformado em sociedade brasileira em algo mais igualitário.

ATH: Você acredita que a questão da representatividade tenha melhorado nos últimos anos? Como você vê isso, principalmente nas mídias sociais?

LB: Eu acredito que a gente tem dado passos muito evolutivos na questão da representatividade, sim. Acho que temos muito a melhorar, mas sigo otimista. E eu acredito que as redes sociais é um púlpito muito importante para esse desenvolvimento.

Só que mais do que estar nas mídias sociais e fazer o ativismo digital, tudo deve ser transposto para o universo offline, para o mercado de trabalho, para conversas na família… Precisa ser levado para o nosso dia a dia, para o contexto “vida real”, com algumas aspas, mas resumindo, para fora do digital também.

ATH: Como você acha que o cabelo pode ajudar, principalmente mulheres negras, a encontrarem a sua identidade?

LB: O cabelo da mulher negra tem muito a ver com ancestralidade, com história, com passado, e obviamente, isso é importante para a construção da identidade da mulher negra.

ATH: Você é colunista negra em uma revista voltada para classe A e B. Como é ocupar esse espaço?

LB: Ocupar esse espaço de colunista na Glamour diz muito sobre quebra de paradigmas. E é um indicativo de que o lugar do negro é onde ele quiser. É uma revista voltada para o público AB. Existem muitas pessoas, sim, nesse público, apesar de serem invisibilizadas, e de alguma forma é a nossa luta contra o racismo estrutural que sempre coloca o negro em camadas muito menos prestigiadas na sociedade e esquece que existe todo um público, um poder consumidor e todo um espaço de pessoas negras que precisam ter voz também. Que precisam ter suas histórias e narrativas contadas e compartilhadas com o mundo.

Luiza Brasil box braids no cabelo preso
Foto: Reprodução | Instagram @mequetrefismos

ATH: Em 2017, as pesquisas por cabelos cacheados na internet cresceram 232%, superando as buscas por cabelos lisos pela primeiríssima vez. Já as pesquisas por cabelos afro aumentaram em 309% nos últimos dois anos, segundo dados do Google. Mas será dá pra afirmar que a ditadura dos cabelos lisos realmente chegou ao fim?

LB: Não posso afirmar que a ditadura dos cabelos lisos chegou ao fim. Mas tem um ponto alarmante nisso que me preocupa nas mulheres negras: é de sair de uma ditadura dos cabelos lisos para assumirmos uma ditadura dos cabelos crespos. O que eu acho que a gente tem que pautar, principalmente para mulheres que durante muito tempo tiveram sua história capilar oprimida por padrões de beleza que tem muito a ver com cabelo liso, é que ela pode ter um espaço de liberdade.

Podendo escolher ser a mulher que ela quiser. De usar o cabelo crespo quando quiser, cacheado, trança ou técnicas protetivas, laces… Tudo isso é importante que nós tenhamos em mente, e também é importante que tenhamos as melhores escolhas quando falamos de produtos de cabelo para todos esses momentos.

ATH: É comum meninas de cabelos crespos e cacheados alisarem os fios desde pequenas e só na vida adulta passarem pela transição. Como foi a sua história com o seu cabelo?

LB: É extremamente comum, sim, na vida de mulheres negras, principalmente das que nasceram até a década de 90, essa relação com o alisamento, transição capilar e big chop. Meu histórico é um pouco diferente, apesar de também ter passado um pouco por esse processo de transição. Eu nunca alisei o meu cabelo, sempre usei técnicas protetivas, como tranças.

Mas, como o meu cabelo é 4C, um cabelo com pouco cacho e ondulação, com muito volume e encolhimento, durante muito tempo eu aderi algumas técnicas que tinham a ver com permanente, ou com relaxante, para que de alguma forma o meu cabelo se mantivesse ainda crespo, mas com um cacheado que diziam ser mais maleável, que é um erro.

E, consequentemente, com o uso desse tipo de química, o meu cabelo foi danificando e quebrando. Foi quando eu decidi que eu não queria usar nenhum tipo de técnica ou de procedimento para deixar o meu cabelo mais cacheado do que já era. Eu queria assumi-lo no seu crespo. Pra mim foi algo libertador, entender que o meu crespo pode ser bonito, pode ser um crespo referencial dentro do que ele é. Sem precisar de nenhum tipo de intervenção para ele ser lindo, hidratado, bonito. Somente com bons tratamentos, boas técnicas e boas dicas de cronograma capilar e coisas do tipo.

Próximo