#AmoMeuCabelo: casal cria espaço seguro para LGBTs cuidarem dos fios

Paula Garde, proprietária do salão homônimo em Campo Grande (MS), fala sobre relacionamento e a ideia de abrir um salão LGBT com sua esposa, mostrando a importância da criação de espaços seguros para esse público, inclusive quando a pauta é beleza

Paula Garde e Stephani Demczuk se conheceram na faculdade e descobriram algo em comum: os avós das duas eram cabeleireiros. Outra semelhança é que ambas se sentiam desconfortáveis em salões de beleza convencionais, repletos de padrões. E é por isso que, há três anos, o casal decidiu abrir o Salão Paula Garde em Campo Grande (MS), um espaço seguro onde o público LGBT+ se sente acolhido e à vontade para ser quem quiser.

Atualmente, o negócio é conduzido 100% por Paula – mas Stephani, que hoje tem outro emprego, foi figura essencial para a criação do salão, desde o momento da idealização até a decoração.

A seguir, Paula fala sobre relacionamento e conta tudo sobre esse trabalho tão relevante e inclusivo.

A Paula e a Stephani

“Eu e Stephani nos conhecemos na faculdade: eu fazia Artes Visuais e ela estudava Biologia. Sempre nos víamos no ônibus, mas nunca havíamos conversado. Até que um dia fiquei amiga da prima da Stephani, sem saber que eram primas, e com isso nos aproximamos.

Terminei o relacionamento que tinha na época e começamos a namorar. De lá pra cá, se passaram quase 10 anos. Em dois anos de namoro fomos morar juntas, mas o casamento só aconteceu com oito anos de relacionamento.

Paula Garde e Stephani Demczuk no casamento
Paula Garde e Stephani Demczuk no dia do casamento. Foto: Pato Rammsy Ramos

Em comum, temos nosso ideais e objetivos, mas nossas personalidades são muito diferentes. Eu sou mais calma, paciente, distraída, perco o foco com facilidade, bem canceriana.

Stephani é mais enérgica, organizada e focada, bem virginiana. Acho que ao longo dos anos eu ajudei a Stephani a ser uma pessoa mais tranquila, menos irritada. E a Stephani me faz ter um pouco mais de foco e buscar meus objetivos.

Salão Paula Garde: a vida antes e depois

Eu trabalhava na empresa dos meus pais como arte finalista e gerente de produção. Não era realizada profissional nem financeiramente.

Sempre cortei meu próprio cabelo, da Stephani e até de alguns amigos, mesmo sem ter ideia do que estava fazendo. Até que a Stephani sugeriu que eu fizesse um curso profissionalizante, para, de repente, apostar em uma nova carreira. Me encontrei nesse universo dos cabelos, e, principalmente, dos cachos.

Comecei atendendo de graça. Logo, arrumei um espaço na minha varanda e comecei a cobrar. Em mais ou menos oito meses, abri meu salão. Isso mudou completamente a nossa vida. Tanto logística, mas, principalmente, financeiramente.

Influência da família

Meus avós paternos eram cabeleireiros e tinham um salão em Ribeirão Preto. Quando nasci, o salão já não existia mais, mas eu ouvia as histórias. Quando comecei a cortar meu cabelo, meu pai me entregou alguns objetos do salão dos meus avós, como tesouras, secador, bobs… Hoje eu uso os objetos pra decorar meu salão. A Stephani morava com a avó, que tinha o salão em casa. Ela tem 85 anos e ainda trabalha – é uma grande inspiração pra mim.

Tesouras e navalhas usadas pelo avô de Paula em sua época de cabeleireiro
Tesouras usadas pelo avô de Paula em sua época de cabeleireiro estão enquadradas no Salão Paula Garde. Foto: Arquivo pessoal
Foto de antigas clientes com penteados que o avô cabeleireiro de Paula fazia
Fotografia de antigas clientes com penteados que o avô cabeleireiro de Paula fazia. A mulher do meio era sua avó. Foto: Arquivo pessoal

A criação do Salão Paula Garde

Criar um espaço seguro para que os LGBT+ fossem atendidos era fundamental pra nós. Nos sentíamos deslocadas toda vez que buscávamos atendimento em um salão. Nunca foi confortável pra gente.

Sentíamos que faltava na cidade um ambiente mais despojado, sem tantas imposições estéticas, sem tanta imposição do padrão de feminilidade. E sinto que eu atraí exatamente o público que eu buscava. O salão já existe há três anos.

O que eu procuro fazer é passar segurança para meus clientes. Que eles possam ser quem são, sem medo de julgamentos. A minha intenção é que seja um espaço seguro. O atendimento personalizado, com hora marcada, apenas eu e o cliente, acaba proporcionando ótimas conversas e trocas.

Em espaços convencionais, além do medo do julgamento relacionado à sexualidade, existem também julgamentos estéticos muito pesados nos ambientes de salão. Das mulheres, é cobrada uma performance da feminilidade ao extremo. E os espaços de barbearia podem ser bem hostis para homens gays.

Espaço de acolhimento

Alugamos uma casa bem detonada para montar o salão, e, por conta própria, assumimos a reforma, idealizamos um projeto e seguimos. Deu medo de ficar ruim? Deu. Mas fizemos com medo mesmo.

Nós adoramos decoração, adoramos pintar uma parede. Então foi um processo bem divertido. Priorizamos que fosse um espaço colorido, cheio de decoração afetiva. Acreditamos que a decoração ajuda nesse processo de acolhimento.

Entrada do salão Paula Garde
Entrada do Salão Paula Garde. Foto: Arquivo pessoal
Espaço do Salão Paula Garde
Espaço do Salão Paula Garde. Foto: Arquivo pessoal.
Espaço do Salão Paula Garde
Espaço do Salão Paula Garde. Foto: Arquivo pessoal.
Salinha de espera do Salão Paula Garde
Salinha de espera do Salão Paula Garde. Foto: Arquivo pessoal

Serviços

Meu principal serviço é corte. Valorizo muito a textura natural dos fios e busco finalizar os cabelos de forma que o cliente consiga reproduzir em casa com facilidade. Os cortes mais pedidos por aqui são pixie e os bobs. Mas também ofereço outros serviços como hidratação e coloração.

A maior parte dos produtos que uso são veganos. Eu valorizo essas iniciativas da indústria e sinto que meus clientes também estão buscando por produtos mais sustentáveis e livres de crueldade.

Os próximos passos do Salão Paula Garde

No momento, o principal objetivo é sobreviver à pandemia. Recentemente ampliei o salão e coloquei mais uma cadeira, além da minha. Atualmente, tenho mais uma cabeleireira residente, que trabalha como colorista, atendendo especialmente coloração fantasia.

Eu penso em ampliar mais, mas não gostaria de perder a essência do atendimento exclusivo. Então, tenho planejado tudo com bastante calma.

Liberdade capilar é o lema

Eu valorizo a expressão da personalidade, e acredito que o cabelo é um ótimo instrumento de expressão. Eu empodero meus clientes a fazer o que têm vontade com o próprio cabelo, independentemente de julgamentos externos e padrões pré-estabelecidos.

Aqui, quebramos os conceitos de que cacheado não pode ter franja, rosto redondo não pode ter cabelo curto, cabelo grisalho é desleixo, e qualquer outra ideia aprisionante. Cabelo é pra se expressar e se divertir”.

Salão Paula Garde
Endereço: Rua Professor Xandinho, 126 – Campo Grande (MS)
Contato: pelo Instagram @paulagardecabeleireira ou pelo Whatsapp: (67) 98111.9129.

Paula e Stephani
Paula e Stephani. Foto: Arquivo pessoal

Próximo

Sugestão de produtos ATH

O segredo para ter cabelos bonitos e saudáveis começa na lavagem. O shampoo e condicionador Love Beauty and Planet Hope and Repair, por exemplo, tem óleo de coco virgem e orgânico + flor de ylang-ylang para proporcionar nutrição, hidratação e uma aparência saudável aos fios.

O Creme de Pentear Love Beauty and Planet Hope and Repair conta com os mesmos ativos e ajuda a recuperar os fios danificados enquanto confere brilho e maciez, facilitando o momento de desembaraçá-los. Também evita formação de pontas duplas. E os três produtos são veganos e cruelty-free, yay!