Escolhi alisar: o relato de uma cacheada que prefere seus fios lisos

All Things Hair | 17 maio 2019
Mulher com cabelo alisado

Ditadura do cabelo natural? A consultora técnica Thalita Gabriela Costa Yebahi, de 33 anos, conta por que resolveu assumir que estica os cachos e diz que muita gente torce o nariz para sua escolha.

“Cresci em Joinville, Santa Catarina, uma cidade de colonização alemã onde a grande maioria das meninas têm cabelo liso. Eu, cacheada, me sentia diferente por causa disso. Quando eu era criança, muito antes de alisar os cabelos, não existiam muitos produtos para o meu tipo de cabelo. A minha mãe tinha dificuldades para me pentear porque sempre tive bastante fios e eles eram grossos.



Cabelo e autoestima



Eu sempre tive o desejo de ter cabelo liso. Era o que eu achava bonito. Na adolescência eu comecei a ter problemas de autoestima por causa do meu cabelo. Quando fiz uns 14 anos, passei a usar creme de pentear na intenção de deixá-lo menos armado, mas não saiba aplicar direito e encharcava os fios com o produto. Demorava umas oito horas para secar. Os meninos debochavam de mim, perguntavam se eu não tinha secador em casa. O cheiro também era bem forte. Nessa época eu me sentia muito insegura, não me achava bonita com meu cabelo cacheado.

Mulher com cabelo cacheado
Foto: arquivo pessoal

Por volta dos 15 anos eu comecei a fazer escova e, aos 18, comprei uma chapinha. Naquela época não era muito fácil encontrar esse tipo de utensílio. Eu perdia umas três horas para arrumar meu cabelo para poder ir às festinhas. Passei a alisá-lo sempre e meus cachos começaram a esticar. Ficaram volumosos na raiz, mas perdiam a forma nas pontas. Com 19 anos comecei a aplicar químicas. Fazia relaxamentos, escovas de cana-de-açúcar e outras técnicas, tudo para tirar o volume. Aos 22 conheci a progressiva, que faço até hoje.

Mulher com cabelo alisado e com cachos
À esquerda, Thalita em 2018 e à direita cacheada, em 2002 | Foto: arquivo pessoal

Os meus cachos eram muito bonitos, mas sentia que eles não faziam parte de mim. Quando olho fotos antigas, não me sinto eu. É engraçado porque, desde a primeira vez que fiz escova, soube que era daquele jeito que eu gostava do meu cabelo. Era um trabalhão alisar, mas o cacheado de todo dia me dava muito mais dor de cabeça. Se eu arrumasse hoje, amanhã teria que passar um produto para definir os cachos. O liso para mim significou uma libertação. Com a progressiva, por exemplo, claro que existe um certo tempo de duração, mas me custa muito menos tempo de cuidado.

Rotina capilar

A minha rotina é simples: faço progressiva a cada três meses e, no banho, uso shampoo, condicionador e protetor térmico sempre! Lavo os cabelos três vezes por semana e, quando não lavo, escovo a raiz na parte da frente porque ela costuma ganhar frizz com o vapor.

Um tempo atrás fui a uma formatura e senti uma indireta vindo de uma pessoa. Ela disse: “Tu alisa? Tu não quis assumir teu cabelo cacheado?” Falou num tom de julgamento, como seu eu não pudesse alisar o meu próprio cabelo. Eu respondi que prefiro assim, me acho mais bonita desse jeito. Quando acontecem essas situações eu desconverso, tento mudar de assunto para não criar um clima ruim.

Mulher com cabelo alisado
Foto: arquivo pessoal

Penso que a imposição é algo ruim. Da mesma forma que há dez anos as mulheres eram praticamente obrigadas a alisar, hoje em dia as pessoas estão começando a dizer que não se pode alisar.

Eu acredito que cada um sabe o que faz bem para si. Eu resolvi parar de me forçar a gostar do meu cabelo cacheado. É claro que o movimento da aceitação é ótimo, precisamos mesmo falar sobre os padrões. Mas, além da beleza, meu cabelo é a minha identidade. Significa me olhar no espelho e me enxergar como a Thalita que sou. Respeite a minha escolha.”