Luca Scarpelli: o processo de autoaceitação de um homem transgênero

Conheça um pouco da história do Youtuber e publicitário.

“Calma. A gente vai ficar bem”. Em tempos de ódio, escolhemos uma frase de esperança para começar a matéria. Essa é a mensagem que finaliza a entrevista que fizemos com Luca Scarpelli, 28 anos, homem transgênero, Youtuber e Publicitário, como ele se define no perfil do seu Instagram @transdiario, que conta com mais de 45 mil seguidores.

Dizer que tudo vai ficar bem pode parecer algo simples, corriqueiro. Mas não nesse contexto. Essa frase, no plural da primeira pessoa, é um recado direto de esperança para todos aqueles que, assim como Luca, lutam diariamente para simplesmente SER. Para sobreviver no país que mais mata transsexuais no mundo.

Conversamos com Luca para conhecer um pouco da sua história, como sua relação com o próprio cabelo ajudou nesse processo de auto aceitação e ouvir o que ele tem a dizer para outras pessoas que se encontram hoje no lugar em que ele próprio já esteve: de se identificar como pessoa trans.

Homem com cabelo curto com topete
Foto: reprodução | Instagram @transdiario

Primeiro corte de cabelo curto: o grito de liberdade

O seu primeiro corte de cabelo curto aconteceu antes de se entender enquanto trans. Na época, ele conta que ainda se identificava como “uma menina mais masculina”, que não seguia os padrões de beleza impostos às mulheres. “Foi muito marcante para mim porque foi um grito de liberdade, um dos primeiros passos que me aproximaram de quem eu sou. Como cortei o cabelo antes mesmo de iniciar a transição, eu percebi que ter o cabelo curto, me identificando ainda como mulher, era um ato quase que político. Dizia muito sobre quem eu era”.

Ao mesmo tempo, Luca conta que esse ato político que carregava em sua própria imagem também trazia uma série de estereótipos, como a lésbica, mulher brava, de personalidade. No entanto, esse detalhe passou a ser invisível após a transição. “O cabelo curto passou a não ser tão notado, já que é o “esperado” para um homem”.

Mas foi em 2016, aos 25 anos, que aconteceu sua identificação como uma pessoa trans, embora o incômodo com a sua identidade de gênero já existisse desde sempre. “O processo foi bastante intenso e difícil, porque o primeiro preconceito que precisamos vencer é o nosso próprio. Recorri à terapia, com uma profissional que era preparada para lidar com pessoas que tinham questões de identidade de gênero”, recorda.

o yourtuber trans Luca Scarpeli
Foto: Instagram @transdiario

Autoaceitação

A transição trouxe, entre tantas coisas, as pazes com o espelho. Atualmente, ele, enfim, se identifica com o que enxerga no reflexo. “Hoje, quando me olho no espelho, me vejo como realmente sou. Antes da transição, evitava me olhar porque eu não me enxergava ali. Via uma imagem que não era a minha. Hoje eu amo me ver no espelho e me orgulho do que vejo”.

Homem com cabelo curto castanho
Foto: reprodução | Instagram @transdiario

Para quem ainda está no difícil caminho de se encontrar, Luca diz que a transição é uma caminhada individual e coletiva. “Individual porque cada um tem o seu processo, não existe um caminho único. Só a pessoa pode decidir o que quer ou não fazer, se quer tomar hormônio ou fazer cirurgias, por exemplo. E, por outro lado, é uma caminhada coletiva porque todos à nossa volta também passam por uma transformação ao acompanharem a nossa transição”.

Homem com cabelo curto castanho arrepiado
Foto: reprodução | Instagram @transdiario

E a mensagem que ele deixa para você que está nessa luta pessoal para se auto aceitar e encarar de frente tudo o que uma transição traz consigo? Aquela mesma que abrimos essa matéria: “Nunca é tarde o bastante para sermos nós mesmos. Calma. Vai dar tudo certo. A gente vai ficar bem!”.

Homem com cabelo curto castanho de lado
Foto: reprodução | Instagram @transdiario